Histórias dos nossos VWs - 7

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"Fusca de bananinha"
Autor: Ernesto Bernardi
História publicada no site "São Paulo minha cidade" em 11/08/09 - http://www.saopaulominhacidade.com.br/list.asp?ID=3517 

Tio Haylton era o mais brincalhão dos tios. Irmão caçula de meu pai, sabia todas as piadas, gostava de passarinhos cantantes e era corintiano roxo. Único filho a trazer o olho azul do nonno Idônio, característica que passou ao seu filho mais velho Hayltinho. Tinha uma energia de viver como poucos. Não sabia contar um caso sem emoção, sem emitir ruídos e, mesmo em casos dramáticos e verídicos, todos sem exceção caíam na gargalhada. É claro que quando o "coringão" ia mal das pernas, a família de palestrinos e santistas não deixava barato, mas ele sempre tinha um jeito carinhoso e gentil de sair daquela pressão e de modo envolvente se fazia o mais querido de tutti quanti.


A tia Nemesis era muito calma e tinha a maior paciência com os sobrinhos; D. Rosa, sua mãe, tinha o mais bonito sorriso, como a filha, e nos recebia com um grande abraço e falava, "Oh, figlio mio..."

Titio morava na Rua São Paulo e nós achávamos muito curioso uma rua levar o mesmo nome da cidade. Eu dizia sempre aos meus primos que a maternidade que nasci era São Paulo, a cidade e o estado também, então só me faltava aquilo, morar também numa rua com o nome de São Paulo.

Ali a cinquenta metros tinha o Largo São Paulo com o teatro do mesmo nome; era o espaço para os "pestinhas" andarem de bicicleta, jogarem bola e correrem até doer atrás das costelas. Numa esquina do largo exibia-se majestoso palacete de dois andares e tinha brasão e bandeira com as cores da Itália. Hoje o largo é a Praça Almeida Junior, o teatro que virou cinema por algum tempo, não existe mais e o tal palacete hoje é a Società Italiana Lega Itálica, que nasceu da junção de outras sociedades que funcionam em outros lugares na atualidade, Società San Vito Mártire, Muse Italiche e Lega Lombarda.

Ano de 1960, a grande novidade, fomos levados por meu pai num final de tarde no meio da semana até a casa de meu tio, o que era incomum. Lá chegando, surpresa! Meu tio havia comprado um fusca, o objeto do desejo de todos brasileiros. O carro era usado e tinha equipamentos curiosos, como o sinalizador externo, ou pisca-pisca, na coluna do carro; quando se ligava o dispositivo saía uma "bananinha" da coluna e uma lâmpada na cor amarela piscava de forma intermitente. Ficamos malucos, só queríamos saber de ligar o pisca, ao que o nosso pai foi logo interrompendo, "Ou, molecada, assim vai quebrar!".

Aos poucos fomos descobrindo detalhes, como um buraco atrás do banco traseiro que cabia dois de nós. O fusca não dava partida na chave como os carros modernos; a chave, depois de virada, acendia uma lâmpada vermelha e outra verde no velocímetro, aliás, o único medidor no painel, meu tio apertava um pequeno botão branco situado logo abaixo da chave e aí dava partida no motor. Queríamos ver a parte da frente do carro aberta para verificar que ali não tinha motor, pois motores dianteiros eram a praxe daquela época, como no Ford 1946 de meu pai; depois rapidamente queríamos ver a traseira para comprovar, "Sim, ali estava o motor!"

Daí fizemos todo tipo de pedidos para andar na maravilha, mas meu pai cortou imediatamente a campanha com um "Não! Vamos embora para casa, pois sua mãe está esperando para jantar."

E assim fomos para a cama, sonhando o dia que iríamos passear de fusquinha, com direito a uma Cerejinha e depois Chicabom com o tio mais legal do mundo.