Historias dos nossos VWs

Quem mora no interior, sempre guarda na memória com muito carinho, o momento em que foi, pela primeira vez até o litoral, conhecer o mar. Quem já passou por esta experiência conta, provocando inveja nos que ainda não foram. Este momento demora mais ou menos para cada um.

Eu tive a chance de conhecer o mar, antes de meus pais e minha irmã que por um tempo tinham de ouvir minhas aventuras praianas daquele verão de 1984.

Poucos anos depois só ouvindo minhas historias, meus pais resolveram empreender uma viagem até o litoral e convidaram um casal de tios e suas três filhas para irem também. A prima mais velha tinha um namorado que também foi convidado.

Meu pai tinha uma Kombi 1982 que usava para fazer serviços de topografia. Esta, segunda que possuiu, servia para enfrentar as estradas de terra das fazendas interior e carregar, além de equipamentos os auxiliares. A Kombi já estava para ser vendida para que outra mais nova ocupasse seu lugar, mas antes ela deveria cumprir a missão histórica de levar aqueles dez ansiosos moradores do interior ao mar.

Dez não, que de última hora, mais um passageiro apareceu: Uma vizinha, quando soube que iríamos para a praia insistiu um pouquinho – por assim dizer, para ir junto. A Kombi teria a heróica missão de mostrar o Mar para onze pessoas.

Onze pessoas não levam apenas uma caixa de lenços e uma troca de roupa em uma mochila. Não, a bagagem de cada um incluía desde remédio contra enjôo a colchões, ursinhos de pelúcia, roupas para todas as estações, binóculos, rádios-gravador, algumas “coisinhas” para comer, além de livros e cadernos – como se alguém estudasse nas férias – mapas e uma televisão emprestada por um amigo com a recomendação de “cuide bem dela” quase como quem empresta um membro da família.

Acomodar tudo isso dentro da Kombi seria impossível, então foi adaptado um bagageiro no teto, preso por seis presilhas de alumínio, aparafusadas contra a calha da Kombi. A aventura da viagem começou ainda de madrugada, para escolher a melhor combinação entre o que colocar no bagageiro e o que colocar na parte de dentro. Argumentos lógicos como “O ursinho de pelúcia não pode tomar vento” foram fortemente considerados.

Partimos tarde, em relação ao esperado para uma viagem prevista de 6 horas de Rio Claro até Ilha Comprida, litoral Sul do Estado de São Paulo.

Onze pessoas, sendo a maioria adolescente ansiosos para chegarem à praia, é uma alegria só. Muita piada, muita musica. Tudo era motivo para risadas.

Pouco antes de completar a primeira hora de viagem, algo saiu voando do bagageiro.

- Pai, alguma coisa se soltou do bagageiro!

Paramos no acostamento e conferimos tudo – Que não seja a televisão, pensei. O que havia voado era uma das seis presilhas que prendia a bagagem. Ainda havia cinco presilhas e depois de alguns apertos, retomamos o caminho.

Mais alguns kilometros e mais um objeto voador não identificado se solta do bagageiro – Que não seja a televisão!

Outra presilha, do extremo oposto. Mais alguns cálculos mentais e mais estrada, agora procurando uma cidade ou posto para fazer uma manutenção. Entramos numa pequena cidade e encontramos um serviço de ferro-velho. O dono do ferro-velho muito falante nos convenceu a fazer uma adaptação que envolvia peças de seu estoque e solda que por conhecidência ele também poderia oferecer.

Ficamos esperando ficar pronto por mais umas duas horas e então partimos.

Então a chuva começou e o cansaço começou a atacar os adolescentes, as mães e os ursinhos de pelúcia. Meu tio, meu pai e o namorado de minha prima se revesavam no volante. Mas a exceção de quem dirigia, os passageiros começaram a dormir, uma ou outra vez.

Eu não deixava de pensar naquelas presilhas se desprendendo e se a manutenção de beira-de-estrada daria conta de toda aquela carga que incluía a televisão, então me mantive acordado toda a viagem.

Mais duas presilhas caíram durante a viagem e precisamos parar novamente em um ferro-velho para fazer uma manutenção emergencial.

Mais duas horas para fixar o bagageiro e outro senhor falante e possuidor de todas as peças e serviço para a manutenção.

Na última perna da viagem, o cansaço, o barulho da chuva com o tilintar insistente e monótono das explosões nos pistões do motor da Kombi, fez todos os passageiros ficarem num estado de torpor, lutando contra o sono para ver as lindas paisagens que começavam a surgir no horizonte.

Neste momento a última presilha original se soltou, mas acho que ninguém estava em condições de alertar alguma coisa e todos fingiram estar dormindo – ou realmente estávamos.

Foi então que a Kombi parou e ouvimos – Gente, olha o mar!

A chuva havia passado, estávamos no meio da tarde e o mar com toda sua maresia entrou pelas janelas da Kombi acordando a todos que, não sei de onde, encontraram energia para sair, ver e sentir as sensações de se estar vivo.

A Kombi mostrou ter alguma emoção também e desde que saímos de Rio Claro deu sua única falha de motor, como se um nó lhe descesse pela garganta.

Atravessamos à balsa até a Ilha, ficamos alguns dias lá e voltamos dias depois com historias para contar, queimaduras pelo corpo e uma Kombi orgulhosa de ter feito parte da historia destas duas famílias.

Cerca de uma hora após deixarmos a ilha, de volta para casa, alguém gritou

- A televisão! A televisão ficou na casa!

E tivemos que voltar para pegá-la!

Poucos meses depois a Kombi foi vendida e quando a limpávamos para entregar para o novo proprietário, encontramos uma conchinha sob o tapete, resolvemos deixá-la ali mesmo, para que a Kombi possa contar para seus novos proprietários que se quiserem, podem ir até a praia, ela já sabe o caminho.