Histórias dos nossos VWs - 5

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"O Fusca do Seu Geluffo"
Autor: José Luiz Batista da Fonseca
História publicada no site "São Paulo minha cidade" em 13/10/08 - http://www.saopaulominhacidade.com.br/list.asp?ID=2213
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Dizem que amor de brasileiro é automóvel. Acho que é a pura verdade. Até recentemente, uma rede de postos de combustível chegou a fazer peças publicitárias sobre o tema. Principalmente para nós, paulistanos, o automóvel tem papel importante nas nossas vidas, nas nossas famílias, nas nossas casas.

É bem verdade também que numa cidade como São Paulo, onde as distâncias são longas e o transporte coletivo é deficitário, o carro acaba se tornando essencial. Então, vale o sacrifício para se comprar um, mas, às vezes, a coisa chega ao exagero. Sei de gente que deixa de almoçar, passando a base de lanche (saca aquele hot-dog com suco por dois real?) para ver se, no final do mês, sobra algum para pagar a parcela do consórcio.

Até penso que há uma inversão total de valores. Passando pelas ruas, vejo certas casas que não condizem com os automóveis presentes na garagem. Ou o contrário: os carros é que não condizem com as casas. Já vi carro de luxo, versão CD (a mais equipada) em garagem de sobradinho geminado de bairro da periferia. O carro devia valer o dobro ou o triplo da casa. Tá certo que trocar de casa é muito mais difícil e oneroso que trocar de carro. E o que eu tenho que me meter? Como cada um é cada um, e o dinheiro não é meu mesmo, respeitemos o direito de todos, independentemente de seus valores.

Na minha infância, poucas eram as pessoas que tinham automóvel. A cidade não era tão grande e os ônibus e os bondes nos levavam onde precisássemos, mesmo porque não precisávamos ir muito longe mesmo. Era tudo muito perto de tudo. Parece até que o ritmo das nossas vidas era outro. Não havia tanta pressa. Não havia essa sensação de perda de tempo, esse negócio de que tempo é dinheiro. Aliás, esse era o bordão de uma propaganda da loja de lustres Bobadilha (na Consolação até hoje).

O balanço do bonde e o solavanco do ônibus nos cadenciavam e sempre chegávamos na hora certa aos locais. Nunca estávamos atrasados e exacerbados pelo trânsito ruim, que não havia. O único aborrecimento que tínhamos era quando algum cabo elétrico de algum bonde saía dos fios suspensos que forneciam a eletricidade para movê-lo. A corrente elétrica era interrompida e ele parava de imediato, causando toda a paralisação da linha. Assim, todos os bondes que vinham atrás estancavam formando um congestionamento. Parecia até uma composição de vagões cargueiros enfileirados.

Lembro que, na época, não era tão comum nossos vizinhos possuírem carros. Até mesmo muitas casas nem garagem tinham. Mas, o Seu Gelulffo, que, por acaso, era o pai de um dos meus melhores amigos de infância, já possuía um.

Ele era chefe de diagramação do Estadão. Como trabalhava na produção do jornal, ele trocava o dia pela noite. Saía de casa ao anoitecer e só retornava pela manhã, quando o jornal já estava nas ruas. E pelo incomum horário de trabalho, quando a disponibilidade de transporte era escassa, senão inexistente, era inevitável que tivesse um meio de locomoção próprio.

O carro do Seu Gelulffo era um Volkswagen, o carinhosamente conhecido fusquinha. O segundo carro a ser totalmente fabricado no Brasil. Era branco, mais propriamente da cor gelo, acho até que para combinar com o nome dele. Lembro bem daquele carro, todinho branco, digo gelo, de estofamento de tecido cinza mais escuro. Tinha um emblema no capô dianteiro que era a figura de dois bandeirantes, um ao lado do outro. Não sei por que essa figura. Talvez representasse a cidade onde era fabricado o carro: São Bernardo do Campo. Ou alguma alusão ao Estado de São Paulo, não sei. Sei que o Américo, filho dele e meu amigo, vivia lustrando aquele emblema.

Como o jornal não circulava as segundas - engraçado não circular as segundas, parece até que nada de notícia acontecia aos domingos -, o Seu Gelufo, ao voltar do trabalho de manhã, já emendava o dia, pois à noite teria a reposição normal do seu sono. E ele não queria desperdiçar seu domingo. Então o que fazia: lavava seu fusca na porta de casa. Esse ritual era sagrado. Todo domingo pela manhã, Seu Gelulffo lavava aquele fusca.

Lavar o fusca até que era o de menos. Afinal, aquele carrinho que o levava ao trabalho para o ganho do sustento familiar merecia esse trato. O problema é que ele tinha uma vitrola (para esclarecimento dos meus amigos mais novos, trata-se de um aparelho reprodutor de som gravado em disco de vinil, os populares bolachões). Era uma ABC (Voz de Ouro) em móvel de jacarandá, maravilhosa, onde ele tocava seus discos de óperas.

Eu, que acordava cedo todos os dias (seis da matina) para ir para escola, mais queria dormir aos domingos. Mas não tinha jeito. Lá estava o Seu Gelufo, o fusquinha e a ABC a todo vapor. Logo às 8 da manhã do domingo. Não bastassem os pulmões de aço dos sopranos e tenores, o problema maior era o Seu Gelulffo cantando junto. Nem gato na vizinhança agüentava!!!

E brigar não dava. Éramos vizinhos e a política da boa vizinhança não permitia. E como não tinha jeito mesmo, para não pegar raiva do pai do meu melhor amigo, comecei a gostar de ópera. Viva Carreras, Pavarotti e Plácido Domingo. Mesmo nas manhãs plácidas de domingo!