Histórias dos nossos VWs - 18

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"Como fui do Fusca ao meu primeiro milhão"
Fonte: Isto é dinheiro Nº edição: 417 / Por: Leonardo Attuch
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Aos 17 anos, o neto de libaneses Salim Mattar decidiu o que queria fazer na vida ao fazer uma entrega de cheque a um cliente da empresa onde trabalhava como office-boy. Com uma conta rápida a partir do valor do cheque, concluiu que uma locadora de carros podia render gordos negócios. Aos 23 anos, concretizou o plano e, a partir da primeira loja, com seis fuscas financiados, chegou hoje à maior empresa do setor no Brasil, a Localiza, com uma frota de mais de 50 mil carros.

Dono da Localiza, que iniciou a empresa com seis fuscas financiados, conta como fez a companhia valer R$ 1 bilhão na Bovespa e sugere aos empresários que também vendam ações no Novo Mercado

Desde o dia 23 de junho de 2010, data em que a Localiza concluiu sua operação de abertura de capital, o empresário Salim Mattar, presidente e principal acionista da companhia, mudou sua rotina. Todos os dias, logo cedo, ele começa a acompanhar a evolução dos preços da ação da empresa, que hoje é a maior locadora de veículos da América Latina. Em pouco mais de dois meses, os papéis já se valorizaram 41,75%. Graças a isso, a Localiza, que foi fundada 32 anos atrás com seis fuscas comprados a prazo, passou a valer mais de R$ 1 bilhão. “O bom de abrir o capital é a possibilidade de saber a qualquer momento quanto vale seu negócio”, disse Salim Mattar à DINHEIRO. “E o mercado é claro: ele mostra instantaneamente se estamos trabalhando bem ou não”. Embora o Brasil ainda seja um dos poucos países do mundo com ações de primeira e segunda classe (as ordinárias e as preferenciais), Salim aposta que muitos empresários seguirão o exemplo da Localiza, que abriu o capital no Novo Mercado da Bovespa, onde se exige mais transparência e respeito aos minoritários. Além disso, no Novo Mercado, todas as ações são iguais. “O dono perde poder, mas ganha dinheiro, uma vez que a ação passa a valer muito mais”, diz. A seguir, os principais trechos de sua entrevista à DINHEIRO.


DINHEIRO – A Localiza foi uma das empresas que, recentemente, vendeu ações no Novo Mercado. O que mudou na companhia depois disso?
SALIM MATTAR –
O lançamento ocorreu num momento curioso. Foi no dia de uma reunião do Comitê de Política Monetária, quando o Banco Central, mais uma vez, elevou a taxa de juros. O preço previsto por ação era de R$ 14,40, mas acabamos oferecendo os papéis a R$ 11,50. Vendemos 36% do capital e, naquele momento, multiplicando o preço das ações pela quantidade total de papéis, a Localiza passou a valer R$ 720 milhões. Depois disso, em pouco mais de dois meses, as ações já subiram 41,75% e a empresa passou a valer R$ 1,017 bilhão. Foi um feito e tanto.

DINHEIRO – Por que vocês decidiram vender ações?
MATTAR –
A idéia era permitir a saída de um sócio: o banco americano DLJ que, em 1997, investiu US$ 50 milhões na empresa e comprou 33% das nossas ações. Eles entraram fazendo um típico investimento de ‘private equity’, ou seja, compraram uma participação acionária apostando na valorização da empresa e na possibilidade de saída a médio prazo. Como a bolsa de valores brasileira vinha se valorizando, e já tinha havido lançamentos importantes, como do Submarino e da Grendene, abriu-se uma janela de oportunidade. Além dos 33% do DLJ, vendemos 3% dos administradores. Foi um sucesso porque o mercado está muito receptivo. Falta papel de qualidade, principalmente quando se fala de varejo.

DINHEIRO – O DLJ ganhou dinheiro com a Localiza?
MATTAR –
Muito dinheiro. Eles colocaram US$ 50 milhões, ganharam cerca de US$ 20 milhões em dividendos e saíram agora com mais US$ 130 milhões. Digo isso com satisfação. Quando o investidor estrangeiro aposta numa empresa e ganha dinheiro, isso é muito bom para o Brasil. Trará mais recursos externos.

DINHEIRO – Antes, a Localiza tinha, além dos fundadores, apenas um sócio externo. Agora há muito mais. Como isso afeta a gestão?
MATTAR –
No momento em que abrimos o capital, 870 pessoas físicas compraram ações, assim como dois grandes fundos estrangeiros, o Capital e o Templeton, do Mark Mobius. Mas nós, de certa forma, já vínhamos nos preparando para isso. Nossos balanços eram auditados pela Arthur Andersen há muito tempo. Há vários anos, também publicamos balanços no padrão norte-americano, o US Gaap. Sempre fomos transparentes porque acreditamos que, com isso, teremos melhores condições de financiamento no mercado. E hoje, com mais acionistas, tivemos a oportunidade de reforçar o conselho de administração, trazendo nomes como o economista Paulo Guedes e o Cássio Casseb (ex-presidente do Banco do Brasil).

DINHEIRO – Por que a Localiza optou pelo Novo Mercado e não por um lançamento nos velhos moldes?
MATTAR –
Não queríamos ter papéis de primeira e segunda linha. Todas as nossas ações são iguais e os acionistas têm direito ao chamado ‘tag along’, que é o prêmio de controle. Os acionistas apostam na Localiza porque ela é transparente e também tem dado um retorno médio de 34% nos últimos cinco anos.

DINHEIRO – Muitos empresários, porém, preferem a situação antiga, porque acabam controlando companhias com uma participação pequena do capital, já que as preferenciais não têm direito a voto.
MATTAR –
Essa é a mentalidade do passado. De fato, hoje há empresários que controlam uma companhia com uma fração mínima do capital, fazendo holdings sobre holdings, e isso é uma distorção do mercado brasileiro. Veja o caso da Ambev. Quando ela foi vendida, os donos ganharam uma fortuna e os minoritários não levaram o prêmio de controle. Mas o mercado precifica isso. As empresas da velha Bovespa valem duas, três vezes a geração de caixa. Nós, no Novo Mercado, estamos sendo avaliados em 7,5 vezes a geração de caixa. O controlador perde o prêmio, mas sua empresa vale muito mais. E o empresário tem que entender que a empresa não é do dono; ela é da sociedade. Com transparência, a chance de perpetuar um negócio é muito maior. O empresário tem que lutar pela perenidade do que ele criou.

DINHEIRO – Que outros benefícios a Localiza teve com o lançamento de ações?
MATTAR –
Quando a empresa é cotada em bolsa, o empresário sabe diariamente o valor do seu negócio. Se não tivéssemos ido à bolsa, eu não saberia que a Localiza vale hoje R$ 1,017 bilhão. Eu olharia para o valor do patrimônio líquido, que era de R$ 286 milhões no dia do lançamento. Com ações negociadas diariamente, o empresário também sabe se a estratégia adotada pelos gestores é correta ou não. Além disso, se houvesse aqui uma questão de sucessão, com um filho de um dos acionistas querendo vender ações, ele teria liquidez para sair imediatamente do negócio, sem que a empresa sofresse qualquer abalo.

DINHEIRO – Mas ainda não há a cultura do controle absoluto entre os empresários?
MATTAR –
Isso está acabando. A nova safra de empresários pensa de forma bem diferente. Veja o caso da Renner, uma empresa em que 97% das ações estão no mercado. É uma empresa sem dono.

DINHEIRO – A Comissão de Valores Mobiliários está equipada para fiscalizar as empresas abertas?
MATTAR –
Muito. A CVM brasileira tem um padrão mundial de controle e de gestão.

DINHEIRO – A Localiza conseguiu ser líder em seu setor, com mais de 50% de participação de mercado, concorrendo com multinacionais como Avis e Herz. Qual foi o segredo?
MATTAR –
O investidor estrangeiro vê o País de outra forma. Em momentos difíceis, como o atual, ele coloca o pé no freio e segura os investimentos. Nós não temos alternativas. Como sabemos que as crises são passageiras, nunca deixamos de abrir agências. Já vivemos de tudo: confisco, cruzado, moratória, inflação alta ... e sempre com o pé no acelerador. Começamos com seis fuscas e hoje valemos R$ 1 bilhão. Estamos colhendo o que plantamos lá atrás, porque sempre tivemos confiança no nosso negócio e no futuro. Nós sabemos que o mercado, no Brasil, é maior do que as crises.

DINHEIRO – E qual é o plano de futuro da empresa?
MATTAR –
O potencial de mercado no Brasil ainda é muito grande. Nos Estados Unidos, as locadoras têm uma frota de 1,5 milhão de veículos. No Brasil, excluindo as frotas de empresas, há 50 mil veículos. Se a cultura de locação de carros aqui estivesse arraigada como lá, nosso mercado deveria ser de pelo menos 200 mil veículos. Conheço muitas pessoas que, quando viajam para o exterior, alugam um carro. Quando viajam no Brasil, não alugam. De qualquer forma, nosso multiplicador em relação ao PIB é de oito vezes. Se o Brasil cresce 1%, nós crescemos 8%. Se o Brasil cresce 5%, como talvez aconteça em 2004, nós crescemos 40%. É isso que está ocorrendo no nosso caso agora.

DINHEIRO – Há algum exemplo de empresário que inspire a atuação da Localiza?
MATTAR –
O do Jorge Gerdau Johannpeter, que é o maior estrategista do País. Ele começou com uma fábrica de sucata para fazer pregos e hoje tem um império mundial. No Brasil, ele é meu maior guru. O segredo das empresas bem-sucedidas é sempre ter uma filosofia espartana. Cortar custos, na Localiza, é uma coisa permanente. É como cortar unha. Nós não aumentamos preços há mais de cinco anos. Outra coisa é viver sempre em função do cliente. Todos os anos, eu visito todas as agências da Localiza e isso me toma 90 dias por ano. É na ponta que a gente sente o termômetro do negócio. Mas vai chegar um dia que isso não será
mais possível. Veja a Wal-Mart, que tem mais de 5 mil lojas. É impossível
visitar cada uma delas.

DINHEIRO – Assim como a Gerdau, que se internacionalizou, a Localiza tem operações em vários países. A empresa ganha dinheiro no exterior?
MATTAR –
Ainda não, mas esse é um movimento de longo prazo. Estamos em países como Argentina, Equador, Colômbia e Venezuela, que viveram grandes problemas. Mas esse continente um dia vai ter que dar certo. E nós apostamos nesse futuro. De qualquer forma, o caminho para uma empresa brasileira se tornar multinacional é muito árduo. O empresário americano chega ao Brasil com dinheiro captado a 3% ao ano. Nós temos que superar uma barreira muito maior.

DINHEIRO – O sr. acredita que o Brasil está, finalmente, entrando num ciclo de crescimento sustentado?
MATTAR –
Infelizmente, ainda não. O Estado é grande demais e impõe aos empresários uma carga tributária absolutamente irracional. O Brasil será melhor quando tiver menos estatais, menos fundos de pensão e menos espaços para a corrupção.

DINHEIRO – E a crise política? Como ela irá afetar a economia?
MATTAR –
O Brasil é maior do que a crise. Mas eu tenho certeza de que, nas próximas eleições, o povo irá eleger governantes melhores do que aqueles que elegeu nas últimas eleições. Estou convencido.

DINHEIRO – O sr. é há vários anos diretor do Instituto Liberal. Observando a cena política brasileira, o sr. se sente representado por algum partido político?
MATTAR –

De jeito nenhum. Desde que o Roberto Campos morreu, o pensamento liberal ficou acéfalo no Brasil. Temos sido governados por social-democratas há décadas. E os partidos que se dizem mais liberais têm uma prática política arcaica. Outro dia, eu conversava com o Paulo Guedes e nós concluímos que não há em quem votar para presidente.