Histórias dos nossos VWs - 34

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"Meu Primeiro Fusca"
Autora:
Lauro Barbosa Junior
História enviada via email do Clube
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Meu Primeiro Fusca


Em 1977 o meu primeiro Fusca, um 1965, cor Azul Atlântico - L360, motor 1200 cilindradas, 36 cavalos de potência, com 6 voltes de tensão elétrica.

Depois de tê-lo desmontado para uma faxina geral e irreparável, com direito a retirada de bancos, tapetes e um banho com potente esguicho d’água e solvente, ele ficou pronto para ir à oficina para uma revisão geral, com substituição de peças, engraxamento e troca de óleo.
Radio AM marca Jandal, e um porta treco de bambu com tela (na época já era um tremendo mal gosto), colocado abaixo do porta-luvas, da coluna de direção e a frente da alavanca do câmbio.
Estes pra época eram alguns dos acessórios que tinham para o modelo, e que já estavam no carro quando comprei.
Equipamentos que em pouco tempo os retirei, deixando o Fusca somente com os itens de fábrica, como sempre gostei.
Bom, com todo este cuidado e atenção, estava pronto para cumprir o seu papel de transportador do seu atual proprietário.
Na primeira noite após esta arrumação do Fusca foi possível sair para diversão, fui dar uma volta pela cidade, e se emparelhar a tantos outros que pela cidade circulavam.
Estes outros com aparência jovial também nos documentos (mais novos – bem mais novos e com tecnologia atualizada à época), pois o meu Fusca já completava seus 12 anos de uso ou de idade.

Descendo calmamente a 20 km por hora pela Avenida Rui Barbosa, faróis acesos, Rua Governador Valadares, rádio ligado com sintonia a Radio Difusora AM de Patrocínio, fazendo retorno pela frente da Igreja Matriz, pensava que naquele momento só existia no mundo o Fusca e eu, Rua Presidente Vargas e chegando próximo a Avenida Faria Pereira, o Fusca simplesmente apagou geral.
Enfartou tão agudamente, que para tirá-lo do meio da rua, tive que sozinho empurrá-lo ate a guia da calçada.
Chave de partida desligada, faróis apagados, rádio também desligado, sem saber o que fazer, desci do Fusca e dei aquela volta ao redor dele, com cara de espanto ou cara feia (ao natural), como se repreendesse a alguém sobre um ato desleal, e isso fizesse com que o problema fosse resolvido.
Ainda pra não sair do comum, abri o capô do motor pra olhar sem conhecer quase nada, como se abre a geladeira de casa e fica ali, olhando, sem saber o que comer ou beber.
Voltei ao interior do Fusca e levantei o assento do banco traseiro onde é fixada a bateria, só pra olhar e não fazer absolutamente nada. Ah, abri também o capô do porta-malas claro, também pra nada, porque ali só tinha o pneu de estepe, o macaco e uma chave de rodas, que alias para ser fiel às informações sobre o Fusca, abri mesmo foi o capô do “porta-mala”, porque se a mala for pequena, só cabe uma mesmo.

Todo este tempo de parada, que não foi pouco, fiquei ali sem saber realmente o que fazer. Resolvi entrar no Fusca novamente e tentar nova ignição, e pra minha surpresa o motor funcionou.
Quando liguei os faróis, de imediato percebi que o motor iria parar, e em ato continuo desliguei - depressa, e o motor continuou funcionando.
Por sorte a bateria estava semi nova e com o tempo parado, de abre e fecha as portas, capôs e levanta o assento do banco traseiro etc., ela recuperou parte da carga, e novamente com o motor funcionando redondamente, faróis e rádio desligados pude voltar pra casa quase em segurança. Com faróis apagados!
Depois deste dia – o primeiro com o Fusca, somente com o giro do motor mais alto, e a única opção, de ligar os faróis ou o rádio, nunca, jamais em tempo algum os dois ao mesmo tempo.

Naquela época já não se achava com facilidade baterias de 6 voltes novas para reposição, e esta foi ficando velha!
Num belo dia, já ao entardecer de uma sexta-feira, estacionei orgulhosamente o Fusca na porta da casa da namorada, o Azul Atlântico brilhava mais que sapato de verniz – comum naquela época também, e quando fui sair mais tarde, ao ligar a chave, a luz da bateria no minúsculo painel quase não acendeu e por certo não girou o motor, e foi impossível fazer-lo funcionar só na chave, a bateria não estava mais segurando com eficiência a carga elétrica.
Mas neste dia não tive muito problema e o esforço foi bem menor, porque a namorada deu uma forcinha empurrando o Azul Atlântico ate a primeira rua a baixo. Imagine agora o “orgulhosamente”.
Deste dia em diante, só estacionava o Fusca com as rodas traseira e dianteira do lado esquerdo sobre a calçada, para facilitar o empurrãozinho para o famoso “tranco” pra ignição, ate conseguir uma bateria nova.

Por fim, depois de alguns meses, passei a ter tanta intimidade com o Fusca, o conhecia tão bem, que parecia que eu havia fabricado aquele carro. Sabia cada detalhe de pára-choque a pára-choque.
O Fusca é um carro tão simples e ao mesmo tempo tão avançado, que o motorista de um, tem que se esforçar bastante pra ficar com ele estragado na estrada ou na rua.
Ele não te abandona e você não o abandona, e vira paixão uai.

Um dia troquei este Fusca por outro, um 1967, dois anos mais novo, e com várias modificações e atualizações, também azul, só que Azul Real, motor 1300 cilindradas, 38 cavalos de potência, 12 voltes etc.
Mas este é outra estória.


Lauro Barbosa Junior – dezembro 2004