Histórias dos nossos VWs - 33

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"O Meu Fusca"
Autora:
Carlos Zamith
História publicada no site www.bauvelho.com.br
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Eu estava chegando aos 44 anos de idade, casado, pai de três filhos menores, todos homens, quando decidi comprar meu primeiro carro.

O da moda era o Fusca.

Andei bisbilhotando os anúncios nos jornais e encontrei um ao preço seis mil cruzeiros, ou seis milhões, sei lá. Era o que eu tinha produto de um bocado de tempo economizando. O carro, um azulão, estava na rampa da igreja Matriz, pelo lado da Sete de Setembro. Na porta da loja Play Boy, eu conversava com o amigo José Lopes, o Zezinho Casanova e falei do meu propósito. Mostrei o Fusca que estava bem em frente a sua loja e foi quando ele opinou: “olha, se eu fosse tu, arriscava logo comprar um novo. Pelo menos não vais ter problema algum durante uns dois anos”.

“GRANA” CURTA

Um Fusca zero estava aquém de minhas possibilidades, mas mesmo assim segui o conselho do Zezinho e fui até o Posto Sete, na Rua Miranda Leão. Conversei com o chefão James Souza Lima, velho conhecido e fiquei desanimado quando ele falou que estava na faixa de 13 a 15 mil cruzeiros ou milhões, sei lá. Eu falei que meu disponível eram seis. O James me facilitou o máximo. Dava o que eu tinha como entrada e o resto em 18 prestações fixas de 500 cruzeiros, totalizando 15 mil cruzeiros ou 15 milhões, sei lá. Topei, mas fiz uma exigência: quero um na cor bege claro, para-choques com contornos na lâmina e gigantes cromados. Os novos estavam chegando com o para-choque de outro tipo, de uma só lâmina e o comprador tinha que esperar uns 30 dias. Mesmo assim aceitei.

A NOTÍCIA

Dois dias depois, dia 14 de outubro de 1970, o James fez-me uma ligação dando conta de que tinha o Fusquinha tal qual eu desejava, Era uma desistência, pois a compradora queria exatamente o que tivesse o de para-choque novo. Imediatamente fui ao Posto Sete em companhia de um cunhado, José Aleixo (Zezé), motorista profissional, porque eu nada entendia do assunto. Só sabia mesmo abrir a porta para entrar. Depois de assinar 18 promissórias de 500 cruzeiros, saímos de lá sentindo aquele cheirinho de carro novo e a primeira parada foi num posto de gasolina existente em frente o edifício Tartaruga. Dez “paus” de gasolina.

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O tanque ficou até o gargalo. Ao chegar a casa à festa foi grande. Como não sabia dirigir, nem colocar a chave na ignição, meu cunhado apareceu no dia seguinte para fazer os primeiros treinos. Foram quase dois meses, nas proximidades da um campo na Ponta Pelada ou então na Pedro Teixeira, que estava ainda na piçarra, sem qualquer movimento de trânsito. Demorei muito para conseguir livrar-me do medo até obter a habilitação num exame de rua na subida da Tapajós.

A compra do Fusca impediu-me de adquirir uma casa do conjunto Abílio Nery, na Rua Paraíba, construída na administração do Prefeito Paulo Nery, para os funcionários municipais, quadro do qual fazia parte. A “grana” ficou curta e não dava para saldar duas dívidas. Fazia bico no Jornal do Comércio, com sede ainda na Avenida Eduardo Ribeiro e morava na Rua Luís Antony, ao lado do estádio General Osório. Às vezes, “para aprimorar-me no volante”, levava o Fusca pela Constantino Nery, muitas vezes fazendo “barbeiragens”.

ESQUECIMENTO

Algumas vezes às primeiras horas da noite, dirigia-me à redação do Jornal do Comércio, na Avenida Eduardo Ribeiro e na volta para casa, lá pelas 21 horas esquecia que possuía um carro na porta da redação do veterano jornal. Minha mulher é que dava conta e perguntava? “Cadê o Fusca”? Batia a mão na cabeça e voltava a pé para ir apanhá-lo, fato que aconteceu inúmeras vezes, até que me acostumei.

O carro ficava estacionado na porta de minha casa, uma rua já com trânsito muito elevado. As calotas do meu Fusca foram roubadas inúmeras vezes, de madrugada. Saía fácil com a utilização de um arame. Sempre procurei manter peças originais, até chegar a ponto do impossível.

Todo o domingo, bem cedo, começava a lavagem. Tinha um outro “sócio”, o Clovis Lemos de Aguiar, que morava numa vila próxima a minha casa. Eu lavando o meu Fusca e ele um velho Corcel e usando todo o meu material, desde a água. De quando em vez passava um veículo e dele ouvia-se um grito: “miserável, leva o carro para o posto”. De dez carros que passavam, cinco gritavam a mesma coisa. Nunca soube se era para mim ou para o Clovis. Apenas uns conseguem identificar: era o Flaviano Limongi, no volante de um monstruoso Landau.

Até hoje (ano de 2.000), meu Fusquinha, que inicialmente teve a chapa de número 1-09-01 e cujo manual ainda guardo intacto, assim como o controle de revisão, está em plena forma nesses 30 e tantos anos de vida, com boas viagens, na década de 80, aos municípios de Itacoatiara e Manacapuru, enfrentando asfalto, pistas de barro batido sem nunca me causar vexames. Esse Fusquinha, com lataria ainda original e com algumas pinturas mantendo a mesma cor, está há dois anos sem entrar numa oficina. Só me causa um transtornou: o de colocar gasolina, dez paus por semana. O Fusca vai comigo.

SOFRIMENTO.

No conjunto Aristocrático (Bairro da Chapada) onde resido há mais de 25 anos, o meu fusquinha já foi vítima de inúmeras alagações. Normalmente, no período de chuva, pelo menos quatro ou cinco vezes por ano é um sofrimento. Às vezes dá tempo de retirá-lo para um ponto mais alto, mas quando a chuva cai de madrugada, não tem outro jeito se não o de ver o meu fusquinha cheio de água do igarapé que passa a 50 metros, transbordar.

Certa vez, antes de ir para a Câmara Municipal, na Avenida Sete de Setembro, deixava a meu fusquinha estacionado na Rua Lobo D’Almada, ao lado na antiga Casa das Geladeiras, esquina com a Rua Saldanha Marinho. Um colega de repartição me alertou: Zamith vai ver o teu Fusca, ele está boiando. De fato, quando lá cheguei vi o problema. A água dava no meio da porta. Só duas horas depois consegui, com a ajuda de um mecânico, transporta-lo para uma oficina.
 

Eita Bichinho pra gostar de água.
 

O FUSCA FOI VENDIDO EM JANEIRO DE 2009 POR 5 MIL REAIS, A UM CIDADÃO DE NOME Eduardo Gomes.