Histórias dos nossos VWs - 32

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"Capitulo 1 - O Pedágio"
Autora:
Augusto Pattoli
História publicada no site http://osguelos.blogspot.com.br
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Todo final de semana eu, meu primo e meu tio viajávamos para o sítio no interior de São Paulo.
Este, em especial, estava maravilhoso, um sábado fantástico de primavera, o sol iluminava as flores e as árvores, os pássaros voavam agitados como se estivessem anunciando o que estava por vir.

Como sempre fazia todo sábado de manhã, fui para o portão de casa e me sentei na escada da entrada.
Estava esperando meu tio vir me buscar, quando surgiu um velho mendigo no portão, que olhou fixamente para mim e disse:

– Quando a fantasia se mistura à realidade é impossível retornarmos.

Sorriu e foi embora. Continuei ali sentado tentando entender o que aquele velho quis dizer com aquelas palavras.
Pensei apenas que talvez merecesse ouvir aquilo, porque sempre fugia da dura realidade da minha vida, criando fantasias.

Indiferente, sacudi os ombros. Acho que às vezes uma boa fantasia é a melhor arma para mudarmos a realidade dos homens.
Continuei ali sentado olhando as árvores que balançavam com a brisa leve daquela manhã, quando de repente escutei a buzina do carro do meu tio.

Entrei no carro, me sentei no banco de trás e começamos a nossa viagem.

O carro do meu tio era um Fusca velho, cor verde-abacate batido com leite. Nós viajávamos pela estrada, nessa máquina poderosa, a uma velocidade de 60 quilômetros por hora, ouvindo ópera, com meu tio cantarolando alguns trechos conhecidos.

O fusquinha estava superconservado, brilhava muito, não tinha riscos e nunca havia batido, uma perfeita raridade.
Na estrada os carros passavam por nós com pelo menos o dobro da nossa velocidade, mas meu tio mantinha o ritmo constante.

Meu primo, um menino bem magro e agitado, não se conformava com a baixa velocidade que meu tio conduzia o carro
e reclamava muito, mas não adiantava nada, meu tio mantinha a marcha e não se importava com a falação do mesmo.

A estrada, muito sinuosa e perigosa dificultava a ultrapassagem, ainda mais naquela velocidade.
Só me restava esperar pelo túnel, que era sempre um bom sinal, pois mostrava que já estávamos chegando.
Uma brincadeira que sempre fazíamos, quando viajávamos para o sítio, era abaixar a cabeça na hora de passar pelo túnel.

Naquele sábado nós entramos no túnel. É só do que me lembro, porque apareci em um lugar bem diferente!

Eu estava sentado no banco de trás do carro, mas o carro não era mais o mesmo. Estava bem diferente, todo feito de
lascas de árvores e costurado com barbantes, os bancos pareciam cascas de uma fruta muito grande como uma melancia e o teto era feito de folhas enormes com furos.

No lugar do volante havia uma espécie de panela velha, as portas e as janelas estavam presas com barbantes e tudo tinha um cheiro estranho, que lembrava frango podre molhado.

Tudo estava muito esquisito, mas piorou quando olhei para o meu tio, não sabia se ria ou se chorava, pois ele não era mais o mesmo. Estava com uma cabeça enorme, olhos pequenos, grandes orelhas e um narigão imenso.
Meu primo estava muito pior!
Magro, com o mesmo cabeção do meu tio, mas um nariz bem maior e pontudo.
Apesar de toda essa transformação, ainda dava para perceber que eles eram da mesma família.

  Eles me olharam e não perguntaram nada, agiram como se eu já estivesse ali com eles há muito tempo.

  Perguntei-me mais de uma vez que lugar seria aquele aonde eu tinha chegado!

  O carro estava parado, meu tio desceu e deu um empurrão. Quando começou a andar, ele pulou para dentro com o carro em movimento, sentou-se e começou a dirigir segurando na panela.
   Às vezes colocava a perna esquerda para fora e dava mais impulso no carro, que andava silencioso como se estivesse flutuando.
   Eu estava confuso e assustado, comecei a perceber que poderia estar em outro mundo ou sonhando acordado.

  O cabeção deles balançava, enquanto o carro andava e eu não acreditava no que estava vendo.
Comecei a rir sem parar, meu primo riu também e eu ria mais ainda da cara e da risada dele.

Então meu primo perguntou:

– Quanto tempo falta para chegarmos na Güelândia?
 
Meu tio disse que faltavam várias pernadas, meu primo começou a reclamar, foi quando ele levou dois coques no cabeção, que fizeram barulho de bumbo de fanfarra, de tão oca que era aquela enorme cabeça.
No mesmo instante ele abaixou o cabeção, encaixando no pequeno ombro e fez um grande bico que parecia de um pato e acabou ficando quietinho.

Pelos quilômetros seguintes meu tio foi assobiando canções que eu nunca tinha ouvido.
Quanto a mim, encostei-me no banco e fiquei pensando no que me esperava nessa tal de Güelândia.
Depois de algum tempo, lá chegamos. Logo na entrada vi uma placa escrita à mão, com carvão, dizendo:

“Bem-vindo à Güelândia e cuidado com os judãos”.

Para entrar tinha um pedágio e quem tomava conta eram os tais judãos.

Havia no pedágio uns cincos judãos, todos muito altos e extremamente fortes, uma mistura de gorila com canguru.
O que estava mais no meio tinha cara de nervoso e bufava muito, seus olhos estavam vermelhos e batia com força uma mão na outra.

De uma hora para outra ele parou o que estava fazendo, olhou para nós no carro e com um sorriso forçado fez um sinal para o meu tio descer e pagar o pedágio.

Na hora em que eu vi aquele sorriso, pensei: vai dar cagada!

Meu tio desceu para pagar o pedágio e não deu outra, acabou virando a  maior pancadaria.

Um judão segurou o cabeção dele, enquanto outro dava chapuletadas e o restante gargalhava, rolando pelo chão.

Foi tudo muito rápido, ele levou umas 20 chapuletadas no cabeção e umas 10 rasteiras, voltou para o carro com o cabeção vermelho enfiado no ombro, com o mesmo bicão de pato que meu primo tinha feito anteriormente.

Logo que meu tio sentou no carro, meu primo falou:

–  Puxa, Pagüelo, como aumentou o pedágio, antes eram 10 chapuletadas e 5 rasteiras!

Quando meu primo falou “pagüelo”, me deu um estalo. E eu comecei a entender como se estivesse lembrando alguma coisa
do passado.

Quem mora na Güelândia é um “güelo”, meu primo é um “güelino” e meu tio, que é pai dele  é um “pagüelo”.

E eu, como estou entrando na Güelândia, só posso ser um güelino também!

Estava completamente convencido que tinha acabado de chegar numa espécie de manicômio.
E tinha a impressão que enfermeiros de roupa branca iriam surgir e me colocar em uma camisa de força para um tratamento especial, daqueles com choques e injeções.

Eu pressentia que muita coisa estranha ainda estava por vir.

A minha curiosidade era maior que meu desejo de entender o que estava acontecendo; minha vontade era sair pela Güelândia adentro e conhecer tudo, perguntar muito e tentar entender que cidade era aquela.